Diário Cinema

Análise | Harley Quinn: 'Eat. Bang! Kill. Tour' é a turnê que não queremos que acabe

Série animada nos apresenta Arlequina em um novo e muito mais interessante caminho.

Série retira o holofote costumeiro dos homens, o que é um dos melhores pontos de toda a trama. Foto: Reprodução/YouTube.
Série retira o holofote costumeiro dos homens, o que é um dos melhores pontos de toda a trama. Foto: Reprodução/YouTube.
Carol Souza
PorCarol Souza

Que a Arlequina é uma personagem há muito conhecida, todos sabemos porém, o que não sabíamos, é que a mais grata surpresa da personagem para nós este ano viria através de sua série animada, que na última semana estreou sua terceira temporada pela HBO Max disponibilizando seus três primeiros - e incrivelmente bons - episódios.

O arco da Arlequina nos quadrinhos e no DCEU nos cinemas já nos apresentou quase todas as facetas da ex-psicóloga e atual vilã onde ela se apaixona pelo Coringa, se deixa envolver e enganar pelo Coringa, deixa a profissão e adentra o mundo do crime por "amor" ao Coringa, se arrisca, se rebaixa, se deixa humilhar... tudo pelo Coringa, e quando parecia que finalmente veríamos Harley acordando pra vida e entendendo que nem tudo  - ou melhor, nada mesmo - precisa ser sobre ter um homem, ou um rascunho de homem, ao lado, essa jornada foi um tanto mal contada e assim como se iniciou em "Aves de Rapina", terminou ao fim do longa, com a aparição da personagem nos filmes "Esquadrão Suicida" fazendo questão de que ela ou mencione o "Mr. J" quase que em cada cena em que ela aparecia ou arranjando um outro interesse masculino amoroso e problemático para ela.

E ainda bem que "Harley Quinn - The Animated Series" decidiu por ir na contramão e nos apresentar um lado completamente novo e infinitamente mais interessante da personagem, por quem admito, estou apaixonada!

A série animada adulta que teve sua estreia feita em 29 de novembro de 2019 através do DC Universe, teve duas temporadas com pouca notoriedade, sendo posteriormente renovada para a atual terceira temporada e mudando de "residência", passando a ser transmitida pela HBO Max. E nesta nova temporada, devo dizer, Arlequina e Hera vieram com tudo!

Contextualizando, antes de chegarmos aos episódios atuais, a série nos apresentou na primeira temporada o arco "convencional" de Arlequina, repetindo o que vimos em "Aves de Rapina" ao mostrar o término do relacionamento da vilã com o Coringa e sua busca por uma equipe e validação como uma vilã de verdade, e não somente como a ajudante do Mr. J. Entretanto, novamente o foco principal é o Coringa e Arlequina concentra seus objetivos todos em torno do ex-namorado: seja a vingança, seja tomar seu posto como maior vilão de Gotham, seja desmoralizá-lo. Tudo, novamente, é sobre ele. Talvez por isso a série não tenha tido tanta visibilidade no início porque basicamente, sua trama era "mais do mesmo". 

Então, a segunda temporada veio e com ela a mudança de direção que queríamos e precisávamos. Na verdade, quem mais precisava era Arlequina, cuja história estava muito, muito perto de poder ser classificada como oficialmente desgastada. Além de nos apresentar à melhor amiga Hera Venenosa e toda a dinâmica da dupla que divide o apartamento - e não por vontade de Hera, diga-se de passagem - somos presenteados desde a primeira temporada com novos personagens e com versões completamente diferentes de personagens que já conhecíamos, como o King Shark, ou Nanauê para os íntimos, que na série é um grande tubarão branco falante, porém extremamente fofo, e especialista em TI e o vilão Bane que aqui, pode-se dizer que se transformou no alívio (mais) cômico da trama pois, além de nunca conseguir ser realmente ameaçador, tem objetivos vingativos completamente infantis e - pasmem!- até tricota.

Outro personagem que vemos mais a fundo e com outro olhar é o herói Batman, que como todos os outros personagens, tem seus defeitos e esquisitices ressaltados aqui. A todo momento seu comportamento é hilariante, nos mostrando um Bruce Wayne infantilizado, mimado, e muito longe de ser um adulto independente, se escondendo sob a sombra de Alfred - que é outra delícia de se assistir. E fazendo parte deste caminho novo a série, que retira o holofote costumeiro dos homens, coloca Batman como só mais um.

Essa mudança na personalidade dos personagens pode ser descrita como uma sátira dos pontos fracos, ou das lacunas, que existem nas histórias dos personagens mais marcantes do DCEU. O melhor é que essa construção faz sentido, e funciona com a atmosfera colorida e descontraída desenvolvida na série, mesmo com a violência gráfica e os incontáveis e infinitos palavrões. 

O ponto forte da série pra mim, além de colocar o foco em quem merece o foco - pois a série leva o seu nome - é colocar vilões como "vilões tortos". Ela nos mostra que nem só de vilania viveria um vilão porque mesmo os criminosos reais não passam suas tardes de terça-feira sentados tramando planos e sendo mau humorados o tempo todo. Sempre deve haver espaço para um chá com bolo, ou regar as plantas, no dia a dia de todo mundo, até dos vilões. 

A segunda temporada desenvolveu ainda mais a vida da Arlequina sem o ex-namorado que aparece cada vez menos na trama, o que pra mim, foi o ponto mais acertado do roteiro, e aborda Arlequina retomando sua vida, fazendo novos amigos, tramando novos planos e crescendo como uma mulher independente depois de seu , no mínimo, tóxico relacionamento. Mas, uma das melhores surpresas da temporada é que a Arlequina não só se desvencilha de vez do Coringa, como se lança tão profundamente na amizade com Hera que se apaixona por ela, e isso, em momento nenhum é questionado, nem por ela mesma, nem por nenhum personagem, exatamente do jeitinho que a vida real deveria ser! E no início desta terceira temporada Arlequina e Hera, depois de um final de segunda temporada conturbado, onde Hera é uma noiva em fuga - cujo ex-futuro marido era a pura definição do tédio -, finalmente assumem seu romance e juntas, partem pra uma espécie de lua-de-mel, a "Eat. Bang! Kill. Tour", como é chamada pela Arlequina, que a cada episódio só nos faz querer que essa turnê nunca acabe.

Em apenas três episódios já vimos o Comissário Gordon ser enganado pelas "BFF GFF", o retorno do Asa Noturna - que anteriormente era Robin mas que agora é uma versão jovem do próprio Batman -, a reunião da Batfamíla com destaque para o papel de Alfred, e o casal sendo retratado em um filme, mas como se trata de uma série adulta, o filme em que elas figuram, bem, também é adulto.

Palavrões, mortes, sequestros e muito sangue poderiam ser a premissa de um filme de terror mas o humor da série nos fornece o alívio necessário a toda a violência retratada e a coroa com uma das animações mais bem feitas da atualidade. A produção pode ser maratonada toda em um dia se você quiser pois ela não nos cansa, desenvolve muito bem todos os seus personagens, nos prende e nos faz querer mais. Mais uma vez: que a "Eat. Bang! Kill. Tour" nunca termine! 

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